4 04UTC maio 04UTC 2011
por pedestreprimeiro
Desde 2010 levantamos a bandeira do pedestre na cidade e nosso alvo inicial é a Rua da Consolação.
Através de um procedimento que está na Promotoria de Justiça da Habitação e Urbanismo pedimos o redesenho de algumas travessias de pedestres na Rua da Consolação e a reforma e padronização do canteiro central.
Poderíamos ter escolhido qualquer das ruas de má sina em que tantos já faleceram, escolhemos a Rua da Consolação porque nela percebemos e sentimos primeiro, como pedestres, seus absurdos flagrantes.
O gerenciamento do transito no país parece esquecer que cabe a ele tomar iniciativas para zerar o numero de mortes. Em países sérios a meta não poderia ser outra.
A imprensa divulgou recentemente que são conhecidos os locais em que mais acontecem acidentes em estradas: O que tem sido feito pelas autoridades de transito para alertar os motoristas que vão passar por esses trechos e para resolver com urgência o problema antes que mais percam a vida?
Se o problema ocorre nas estradas não menos grave é a sua incidência nas cidades.
Não nos iludamos que com a simples redução da velocidade se chegará à solução do problema do alto numero de pedestres atropelados na cidade.
Muitas medidas poderiam já ter sido tomadas e não se vê que haja uma intenção de efetiva mudança de rumo nas politicas que hoje regulam a circulação na cidade. De 70 para 60 km por hora, de 60 para 50 km por hora, reduções de 18% nas ocorrências, não podemos nos contentar com tão pouco!
Quem observar com isenção perceberá que o pedestre é a peça mais vulnerável no caótico quadro do transito e ele está só. Vulnerável e só. Nem lei, nem ninguém para lhe socorrer.
Podemos perceber como ele tem sido penalizado com percursos alongados para fazer travessias, apenas para que se privilegie o fluxo de carros.Como, inaceitavelmente, está submetidos a tempos intoleráveis de espera, quase 3 minutos ou mais em horários de pico para a travessia de ruas. E ainda quando o farol abre, como ele pode não ter tempo suficiente para atravessar a rua, tendo que correr ou ficar parado no canteiro central, com a sensação de insegurança, que quem passou, sabe avaliar.
Por isso tanta gente sai de carro quando podia ir a pé.
Isso sem falar das baias, quando a falta de projeto lhe impõe a humilhação de ter que andar como gado, ou da falta de caminhos apropriados, gerando parcial e total confinamento.
Qualquer um que ainda possa usar as pernas para o deslocamento cedo ou tarde vai sentir isso na própria pele, pois pelo ritmo das coisas, logo ninguém vai mesmo de carro pra lugar nenhum.
Os absurdos são tantos que valeria começar mencionando os nomes dos santos: A CET, que afora o que já se disse da falta de fiscalização, do privilegio ao fluxo de carros, da não manutenção adequada de botoneiras, inexistência de faixas, enfim um mundo de faltas, ainda instala equipamentos de controle de faróis em frente a faixas de pedestres. O problema denunciado, nove meses não foram suficientes para resolvê-lo, como ocorre na Rua Dona Antonia de Queiroz esquina com a Rua da Consolação, para quem quiser ver.
E agora vem anunciando que vão desenhar mais faixas de pedestres na cidade. Pra que se ela é a primeira a não respeitar o equipamento?
Se o número de atropelamentos na cidade de São Paulo tem ocupado o noticiário nos últimos dias, solicitando a adoção de medidas urgentes para acabar com a carnificina, uma politica de priorização do pedestre no trânsito está longe de ser apreciada.
O pedestre se sente injustiçado no trânsito, daí que simplesmente chamá-lo de imprudente não explique bem porque tantos morrem.
A questão é o que fazer para que o pedestre não mais se sinta injustiçado no transito e assim não seja colocado na posição de quem tenha que fazer justiça com os próprios e insuficientes recursos, no caso o corpo.
Sabemos e logo esquecemos que quando entramos nos carros nos transformamos. De gentis e responsáveis as nossas máquinas maravilhosas e potentes nos transformam em monstros com quem não gostaríamos de conviver.
Por que os motoristas não são incentivados a olhar para os pedestres nas ruas?
Por que ignoram que os faróis não abrem de propósito para quem espera nas calçadas e avançam sobre os pedestres como se fossem os únicos jogadores que contam na partida?
Mas o pedestre, ainda que desrespeitado e ignorado, vai continuar existindo, porque a vida pede que caminhemos até qualquer lugar onde exista o que necessitamos ou apenas para ver a paisagem por outro ângulo.
Não podemos admitir que o trânsito e a maneira como ele é gerido hoje na cidade favoreçam no pedestre o sentimento da necessidade de fazer justiça.
E é isso que está ocorrendo na cidade e de maneira especial na Rua da Consolação.
Foram 36 atropelamentos no ano de 2010 e até o mês de março 4 ocorrências , sendo que numa delas 3 pessoas foram colhidas por um carro no canteiro central a espera de ônibus.
Nas estatísticas frias o que se privilegia são as mortes no trânsito, mas pessoas morrem também quando socorridas não resistem aos ferimentos, mesmo em hospitais. E esses números não contam?
Há uma suspeita inclusive de que acidentados estejam sendo levados pelo resgate mesmo já tendo falecido, para não atrapalhar o transito. Se isso tiver alguma verdade estamos perdendo a chance de analisar as causas de acidentes fatais e com isso a possiblidade de mudar um estado de coisas, além de reforçar a nossa passividade em relação ao problema.
Se não temos estômago para checar os sinais vitais de acidentados, nem competência técnica para fazer algo por eles numa emergência,temos que acreditar que o melhor está sendo feito.
E o melhor é sempre a prevenção.
Ontem foi a Camila Gallane, infelizmente colhida na sua juventude por um ônibus na saída do curso de jornalismo do Mackenzie há duas quadras da porta da escola.
Através dela, a nossa homenagem a tantos outros que foram vitimas do descaso a que o pedestre é submetido na cidade.
Fica a esperança que alguém escute e que se humanize o transito para que não sejamos mais um número na estatística mal ajambrada dos atropelados no transito.